As perguntas e os ídolos não saem da história

Nunca cultivei ídolos. Tenho admiração, contudo, por muitas pessoas. Não precisam ser intelectuais ou artistas famosos. Observo muito o cotidiano, quem está próximo. A distância cria fantasias excessivas, transforma sonhos e mitifica. É importante sabermos que as perguntas sempre existirão. Toda sociedade humana conviveu com dúvidas. Daí, a tendência a eleger certos privilegiados que nos ajudariam a diminuí-las e tornar a vida mais leve. A diversidade caminha com a história, amplia-se com a cultura e  seus projetos de dominação. Portanto, não dá para livrar-se das ambiguidades. Os medos não se afastam, eles se entrelaçam com as dificuldades. A nossa capacidade de invenção busca amenizar as dores. Pensar o paraíso faz parte da imaginação.

Nessas idas e vindas do tempo, costumamos criar estigmas e preconceitos. Acreditar num mundo onde tudo apareça com clareza é um desejo que invade nossos corações. Ele é frágil, no entanto construímos idealizações de forma contínua. Ficamos passeando nas fronteiras. O que é possível compreender? Qual é a extensão dos limites? No passado, as perguntas também existiam e prosseguirão motivando o ritmo da história. Lembrem-se das Cruzadas, das pestes medievais, das colonizações, da bomba atômica, dos totalitarismos. Os sofrimentos não estão apenas no tempo que moramos, como também as conquistas e as alegrias. O presente, muitas vezes, nos apavora, porque o enfrentamos diretamente.

Não importa o nome. Há quem não suporte as opressões da Idade Média. Não gostam nem de imaginá-las ou entender as razões das espertezas da Igreja Católica. Outros sentem a falta das orações, acusam a sociedade atual de materialista e desenganada e querem a salvação vestida com sentimentos religiosos. Reunir todas opiniões, configurar um consenso, não é trabalho que se encerre. A vida corre escutando dissonâncias, mudando as argumentações, desenhando sentidos. Visitamos o passado, pois o presente rapidamente se dissolve. O desafio maior é não se perder entre os tempos, nem desprezar seus vestígios.

Como animais sociais estamos em busca diálogos. Trocar experiências traz sabedorias. A vastidão das relações sociais não permite que haja fórmulas definitivas. As culturas não cessam de refazer seus caminhos. O conhecimento produz curiosidades, informações, mas não consegue explicar a razão de muitos mistérios. No entanto, não custa procurar as sinalizações. Não dá para ficar tonto, achar que o desencontro é ponto final da vida. Por isso, alguns transferem suas indagações e reconsideram seus limites. Deixar-se levar pelas respostas que circulam, sem o cuidado de escutá-las com atenção, pode ser uma armadilha.

Os pesadelos acontecem, mas o bom é viajar no tapete mágico. Aquelas histórias infantis, com fadas, duendes, ainda  sensibilizam. Mesmo que as tecnologias fabriquem surpreendentes máquinas, as nostalgias não desaparecerão. Assim, os fantasmas nem sempre assombram. Tudo depende da nossa coragem em articular os tempos e não negar suas diferenças. Somos responsáveis, quando temos respostas. Não significa que tudo será decifrado. Viver a história é conviver com as ambiguidades. Os sentimentos desejam transparências, porém a complexidade não se exaure. O mundo segue, atravessamos espaços, desafiamos o desconhecido. Cada instante é inauguração de um tempo, uma mudança na respiração?

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