As rebeldias uspianas e os sinais da história

As notícias sobre as ações estudantis na USP se fizeram presentes na imprensa, como muitas controvérsias. Não estamos nos anos da ditadura militar e nem no meio dos acontecimentos de 1968.  Naquela época, o mundo fervia nas buscas e nas negações. Havia outra política, outras rebeldias. As lutas estudantis se integravam no combate aos incômodos do capitalismo. Protestavam contra a burocracia e o crescimento do consumo. O grande grito repercutia e tinha grandes aliados: era preciso denunciar o autoritarismo e respirar a livre imaginação. A mesmice de uma sociedade administrada deixava uma ameaça de apatia e reforçava o controle do desejo. Quem leu Marcuse, Castoriadis, Adorno conhece bem essas questões.

A década de 1960 trouxe agitações culturais renovadoras. Existiam polêmicas, pluralidades, resistências conservadores, uma insatisfação visível que  incentivava  a transgressão. Ninguém  esquece o movimento hippie, nem o festival de Woodstock, as mobilizações contra o imperialismo norte-americano e a guitarra de Jimi Hendrix. Muita coisa se foi, os Beatles viraram um clássico, os sinais de desconforto da atualidade comportam outros registros.  A política está envolvida com o pragmatismo sintonizado com a instabilidade do mercado financeiro. As questões pedem respostas urgentes, pois o ritmo da grana é alucinante, está em toda parte, vestido de mercadoria.

Quando acontecem dissonâncias há um alerta confuso. Qual é o caminho? Por onde anda a repressão?  As drogas não criam impérios demolidores? As instituições de ensino não se perdem com suas ofertas de vestibulares como artigo de consumo? Não faltam inquietações e pouca motivação para revolvê-las. A sociedade ganha em complexidade, porém maioria está atenta às promoções dos shoppings e aos dilemas dos famosos, as paixões que ficam nas vitrines, a moda que mascara as imperfeições do corpo. O que é útil? Como escapar do desemprego?  Como educar os filhos na fuga  dos valores tradicionais? Existem limites?

A situação vivida, na USP, retomou lembranças do passado. Muitos desconhecem o significado das universidades na construção dos sonhos democráticos. Isso dificulta compreender as tensões recentes. Mesmo aqueles que as dirigem se sentem pouco dispostos a conversar com a história. A pressa não está, apenas, nas negociações das bolsas. A paciência é curta, porque a solidão interna é imensa e não se converte em  diálogo. O autoritarismo não se diluiu, gosta de disfarces, atiça manipulações, aprisiona divergências, alarga intolerâncias. Tudo tem um preço, com juros e correção monetária. A universidade não se encontra nos anos 1960, nem tampouco se conecta com as teorias daquela época.

Portanto, é necessário localizar, historicamente, a ação dos policiais e dos estudantes para compreendê-las. A violência persiste. Os estudantes não deixam de arquitetar sonhos, porém eles estão cada vez mais fragmentados. Há quem  lute pela proteção policial e ache inútil discutir sobre os seus limites. A agressividade não mora, exclusivamente, nas ruas. Ela se multiplica, divulga o crack, banaliza gestos ofensivos, desmantela princípios. Mais do que transformar o que sucedeu, na USP, num espetáculo de manchetes e vídeos surpreendentes, é importante observar por onde anda a sociedade tumultuada pela insegurança. As conversas não conseguem aproximar. As instituições não se olham mais nos espelhos, naufragam com o canto das sereias. Desprezam as aventuras de Ulisses.

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6 Comments »

 
  • Thiago Augusto disse:

    Professor,

    Outros tempos pedem outras ações. Como você bem disse, não estamos mais nos anos 1960. Isso, contudo, não significa que os sonhos devam ser deixados de lado. Pelo contrário, eles devem ser motivadores de expressão e de liberdade. Mas é que a fluidez dos tempos atuais exigem novas formas de combate à tal opressão, que ganha novos disfarces a cada dia e não sabemos mais de onde ela vem. Esse episódio da USP revela, pelo menos, que ainda existem as transgressões. E isso é algo positivo, ainda que precise de um ajuste fino ao seu tempo.

    Abraço!

  • Thiago

    Pois é, a história tem suas variações, mas não dá para fugir dos sonhos.
    abs
    antonio paulo

  • DIÓGENES disse:

    Retornamos aos velhos tempos de luta ou essas manifestações não é muito caracterizada pelos antigos ideais ? Os tempos mudaram, e novas repressoões e formas de transgredir a sociedade também, o que ocorre agora é que os sonhos, os valores vigentes se encontram fragmentados pela monopolização capitalista onde tudo hoje é mercadoria. Como enfrentar este mundo com valores enfraquecidos? As manifestações da USP mostram que os sonhos realmente não acabaram mas que hoje é mais dificil idealizar algo revolucionante.

  • Taiguara C. Rocha disse:

    O que mais me impressiona é a maciça campanha das mídias contra a ocupação. Em alguns veículos, essa posição é vista nas sutilezas de um discurso maniqueísta, em outros é defendida abertamente e em alguns até com tonalidades ofensivas. Não é de se espantar uma faixa com um sinal de proibido em cima do logotipo da Globo estendida na faixada da reitoria.

    Vi Ratinho falar: “não estamos mais na ditadura! isso não existe mais! a policia não está lá pra perseguir ninguém!”, e em seguida ataca diretamente os alunos. Mas a repressão existe sim! De modo menos violento, mas talvez até mais cruel. Ela não se dá com pólvora ou choques em em órgãos genitais, mas com frieza, burocracia e mídia.

    Nossa sociedade está, já a algum tempo, afundada profundamente em um conformismo , ao contrário de outros povos pelo mundo, que tem vivido tempos de fervor. Os líderes se mantêm distantes escondendo-se atrás da burocracia e misturam criticas pesadas com demagogia. Esse é mais um fator a desencorajar ações.

    “…e o que vai adiantar fazer isso?” “…isso não vai dar em nada!” “…que eles protestem, mas que não prejudiquem a gente! Eu não tenho nada a ver com isso! Aí também já é palhaçada!” Quem nunca escutou uma dessas frases?

    As técnicas de amansar, conformar e manipular a população pelos veículos de comunicação não são novas. Nessa semana, dia a pois dia, a grande mídia disse: “protestar é ruim” “protestar é feio” “protestantes são vândalos” “protestantes são pessoas sem preocupações, afazeres ou senso de dignidade e cidadania”. A mídia fez de tudo para a ocupação se tornasse um exemplo do que não se deve ser feito. Para criminalizar os estudantes sem a mínima preocupação em lhes perguntar o porquê de tanta revolta. Para a indignação, a revolta e os meios de se lutar pelos direitos ou exigir os existentes serem vistos como infantilidades. “NÃO SE MOVA, ISSO É RIDÍCULO!!!”. A própria fala do Ratinho já é um meio de repreensão, e fortíssimo!

  • Taigura

    Concordo que há mais apatia do que interesse em mudar. A dominação é forte e seduz. O controle se dá de forma abrangente e muitas pessoas nem notam. Por isso, é preciso atenção e crítica, escolhas éticas definidas e saber os limites históricos que nos acompanham. Consumir e comunicar são as palavras fortes que marcam nosso tempo.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    Professor fiz o seguinte comentário n G1 a respeito da questão a respeito que vem ocorrendo na USP:

    Com todo pesar é lamentável termos que fazer nossos direitos valer apena, sou estudante universitário e milito na área pelo direitos e liberdades não só dos Universitários do nosso país, mas também de todos os estudantes brasileiros. Assim é que conquistamos nossos direitos que muitas vezes, são negados, impostos e que a sociedade não têm sequer reconhecimento do mundo das Universidades Federais brasileiras.

    Senhores(a), que estão criticando a confusão da Usp, por que não procuram informarem-se a respeito das causas que ocasionaram as questões no que se referem a problemáticas da invasão da Reitoria, assim com todos os pós e contras a a partir do conhecimento das realidades que vem ocorrendo com a gestão da universidade assim verão quão é complexa a sistemática de confusões que são relegadas ao alunos e que seus direitos são negados. A mídia retrata a imagem dos alunos como marginais, bandidos, uma vez que a demagogia que ela coloca é falseada e que no final a mesma só irá lucrar com notícias. Por sua vez, caso não seja fator inverdades apontadas de um só fato, que ela prove o contrário, demonstrando as questões que originaram essa revolta dos alunos e quais motivo vieram a ser questionado e acrescido com a revolta implodida para chegar a tal ponto de vários estudantes( Esses de Classes baixas e Média) indignados com as restrições impostas pela universidade.

    Se for na questão que envolve maconha por que não olhar em todas as Instituições, pois até onde eu saiba há milhares de jovens que se envolve com maconhas. Por isso é preciso questionar conhecendo os dois lados para saber onde esta a causa do levante realizados pelos alunos da USP. Estou com os alunos que foram a luta pelos seus direitos, esses sim foram corajosos e fazem de seus direitos garantia de um país que busca democracia e não ficar acomodado com as mídias que só passam um lado da moeda, enquanto a outra face fica escondida, ás margens. Daí o perigo de ficar na mesmice das notícias é preciso e necessário reflexão acerca das questões que são ressaltado no cotiando pelas meios de informação. Façam esse exercício. Não custa nada tentar.

    EMANOEL CUNHA

    Abs

 

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