O reencantamento e os destinos pós-modernos

 

As vulgatas judaico-cristãs e hegeliano-marxista baseavam sua espera parasidíaca na denegação desta “vida-aqui” em relação a uma ” vida-lá”, que seria melhor e estaria livre de toda vicissitude. A tensão dramática para uma outra vida é que lhes serve de motor. A reflexão, acima, de Michel Maffesoli encontra-se no seu livro O instante é eterno- o retorno do trágico nas sociedade pós-modernas. O autor faz uma discussão intrigante sobre a contemporaneidade, entrelaçando tempos. Seu mergulho abrange um oceano de mitos e de comportamentos considerados, por muitos, arcaicos, em interação com a velocidade e a fragmentação da tecnologia do cotidiano pós-moderno. Muitas questões surpreendem, outras encontram adversários e críticas imediatas.

Há resistências de pensadores à desmontagem do ideário do progresso e da festa aos feitos do desenvolvimento. No campo da política, observa-se um apego aos planejamentos econômicos encantados com o futuro de igualdades e descobertas científicas inolvidáveis. Não é à toa que a modernidade construiu utopias.Lançou-se num tempo de novidade contínua. Muitos esqueceram o passado, enfeitiçados com poder das ciências. Invertia-se o discurso da salvação, colocando as religiões em outros territórios de ação. As utopias ganharam espaços para consagrar projetos revolucionários. Amanhã vai ser um belo e iluminado dia era um refrão persistente.

As frustrações desfizeram expectativas otimistas, mas nem todas foram eliminadas. A questão de buscar a felicidade não estar ausente do mundo que vivemos. Os argumentos de Freud tocaram fogo em muitos corações e as guerras mundiais tiraram o fôlego da inocência progressista. A qualidade do instante precisa ser repensada, não bastam acumulações de fórmulas e objetos fantásticos para garantir o mínimo de equilíbrio. A afirmação de Maffesoli se veste dessas inquietudes. Por que não olhar para o que está próximo e compreender a incompletude? Por que não suspeitar da ditadura da máquina e das armadilhas do consumo?

A história não cai do céu num dia de são nunca. O paraíso é uma invenção que atiça a curiosidade e assanha a possibilidade de descontinuar. Se as aparências de que a felicidade é efêmera atravessam a convivência social e desmontam costumes e culturas, elas não podem significar paralisias e desânimos. A dimensão trágica agita a necessidade de visualizar outras sociabilidades e não se afundar na culpa que escapa dos espelhos do absoluto. Há algo irracional no curso de fortuna. Ou melhor, sua própria racionalidade reside, justamente, na precariedade,não na distinção a que se aplica. Poderosos e súditos, ricos e pobres, nada escapa a seus golpes, todo mundo pode esperar  suas atenções.

O que traz Maffesoli para roda-viva? Numa sociedade que muda ou possui uma forte ilusão de mudança no descarte das coisas como se veria enaltecendo a ideia de destino? Mas por que, ainda, se conversa tanto sobre a fatalidade, sobre traços que parecem perseguir pessoas ou alinhavar situações? As persistências não são delírios ou paredes desbotadas, sem uso e abandonadas. Talvez, o reencantamento nos chame para não desperdiçar o que se torna longínquo, porém não se afasta da atmosfera do instante presente. A medida das coisas é um desafio eterno.

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