As trajetórias da política nos significados dos tempos

O debate sobre a política acompanha a história. Mudam as concepções. Há fortes ligações com os hábitos de cada época e a forma como a economia se organiza. Onde a escravidão é considerada normal, as regras são outras e as possibilidades de rebeldia também. No entanto, a história não é linear, como alguns ainda gostam de ressaltar. As fronteiras que separam os tempos são frágeis. Muitas vezes, cumprem formalidades didáticas. Os escritos de Maquiavel voltam a fazer escola, Hannah Arendt traz controvérsias importantes para os dias atuais, Rousseau continua tendo seus livros estudados. E as contradições, as ambiguidades, as nostalgias? Há autores que não deixam que a memória dilua suas reflexões.

Existem práticas que aparecem e causam indignação. É notícia que existe trabalho escravo em muitas regiões de mundo. Como fazer leis para combatê-lo? A questão da legalidade não resolve tudo. Ela produz barreiras contra injustiças, mas não consegue fugir das manobras dos espertos. Conviver com a política é esperar tempestades e desconfianças. Há um fluir de cinismos e de frustrações. Nem por isso, as utopias  deixam de transformar sonhos, provocam inquietudes e revoluções. Os desgastes são comuns, porém há quem resista e denuncie, sem se iludir com o vazio das ornamentações discursivas dos poderosos.

O crescimento do capitalismo foi decisivo. A burguesia lutou pela configuração de outros valores e seguiu adiante. Renovou a sociedade, instigou divergências, formulou teorias que assustaram o século XVIII. Houve medos misturados com esperanças. Queda de colonialismos, exaltação aos direitos democráticos, confusão na escolha do significado da liberdade. Foi o chamado período das grandes revoluções, dos investimentos iniciais na industrialização. Eram sinais de uma modernidade que prometia redenções. O passado foi jogado no lixo? A burguesia consagrou a igualdade tão celebrada? Por onde andam os inconformismos e a o desejo de quebrar as censuras?

A política assume outros fôlegos. Os ideais terminam se desmanchando, pois a burguesia domina e não cede seus olhares sobre a riqueza material. A sociedade muda comportamentos e o reino da mercadoria prevalece. As trilhas de um mundo igualitário não se firmam. Voltam explorações e as ambições das minorias, surgem preconceitos com argumentos sofisticados. Há os contrapontos. Eleições mais amplas, críticas ao capitalismo consistentes, promessa de socialização, confrontos em busca de alternativas que neguem a profissionalização da política e seu envolvimento com cargas e corrupções.

Não significa que, no passado, havia coerências e acertos. Não é preciso muita ciência para observar que as andanças políticas não têm passos uniformes. Os totalitarismos e guerras mundiais são exemplos inesquecíveis. Hoje, há uma sequência incrível de acontecimentos que desmoronam  expectativas e consolidam pessimismos. Não se tratam das relações mais internacionalizadas. As perdas são registradas em cada esquina, no ir e vir das cidades, na concentração do narcisismo. O poder ganha espaços ruidosos, mas nunca dissociado de suas máscaras. A política esconde sua nudez com saberes que garantem uma legitimidade, para muitos, esquisita. Ela possui moradias diversas com cores inusitadas. As permanências desenham uma política que não se acanha com nada.

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