Cenas brasileiras(?): o herói, as profecias, os contrastes

A sociedade brasileira vive controvérsias turbulentas. As eleições provocam debates, lembram a política, suas impermanências, expõem ressentimentos. É sempre um momento especial, mesmo com os exageros da propaganda e os candidatos de olho nos cargos, poucos atrelados à cidadania. Há muitas especulações e os pactos se direcionam para pensar outras disputas. A vida continua.  As inquietudes tomam outros caminhos. As relações de poder remexem as estratégias e desconhecidos aparecem com novidades que prometem redefinir posições, derrubar misérias, valorizar a educação. Não há estranhamentos radicais. Basta assanhar a memória, dialogar com o passado.

Não só as eleções desenham sua figuras. O cenário do mensalão ocupa as transmissões televisivas. Anima questionamentos nas redes sociais. Os principais atores colocam seus argumentos, convivem com ansiedades, agitam o noticiário, despertam esperanças e discórdias. A sociedade dividiu-se. As acusações deixaram muita gente perplexa, influenciaram nas conversas cotidianas, trazendo assuntos, antes, pouco comentados ou reservados a uma minoria. É importante que se observe as ambiguidades da política,  seus malabarismos, suas ligações com atitudes não favoráveis à ampliação da democracia. Não há perfeição na construção do social, porém não custa apontar os descaminhos que não são exclusivos de alguns, mas atravessam compromissos decisivos. É preciso redesenhar concepções de mundo.

O julgamento traz exaltações. O  ministro Joaquim Barbosa recebe olhares múltiplos. Muitos o consideram um herói, outros o demonizam. Foi capa de revista, deu várias entrevistas, falou das suas dificuldades profissionais. Sua trajetória virou um história narrada com insistência. Nessas ocasiões, surgem as idolatrias e a fama percorre as páginas de jornais. O próprio Barbosa sentiu-se num lugar que, talvez, nunca esperasse. Cada cultura nutre suas carências, inventam suas saídas. Cumprir tarefas termina sendo enaltecido exaustivamnte. É fundamental que se destaquem as coerências e a capacidade de atuação de cada um. Não podemos, porém, isolar os acontecimentos. Os abismos têm muitas lugares, fundações, cavernas.

Há consertos imensos clamando por ações. A corrupção não se resume ao mensalão. Ela se espalha pelas instituições. Merece punições para que a confiança na política não se extinga. O capitalismo, com as insistentes competições, facilita que as manipulações ganhem espaços. Elas também montam ilusões, festejam conquistas.   O fortalecimento da autonomia necessita aparecer na cena principal. Muitas vezes, os sentimentos ditam vinganças, os acordos consolidam misturas inaceitáveis. Não se socializa a responsabilidade. Os julgamentos não são monopólios dos ministros. Temos que visitar o cotidiano, repartir o peso, firmar o coletivo, não esmorecer.

As cenas brasileiras nos acendem o inesperado. Se há vacilações frequentes na política, também outros tempos mostram que a uniformidade é uma falácia. As metáforas possuem significados, não são elaborações de poetas vadios, com dizem alguns. Num mundo de tantas tecnologias, cabem profecias e crenças inusitadas. O vigilante Luis Pereira previu o juízo final. Não estava só. Contava com 131 seguidores. A história não é única. Luís defende-se: ” Deus se equivocou”. Tudo lembra esquisitices. No entanto, essa não é uma cena brasileira. Em outros territórios o gosto pelo apocalipse ressurge. Estamos próximos.  Tudo se toca. A simultaneidade atiça reflexões e memórias.

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5 Comments »

 
  • Valéria Moura disse:

    Muito pertinente esse texto! Coincidentemente, debati sobre isso com meus alunos hoje no PREVUPE.

  • Valéria

    É uma tentativa de mostrar os diversos pontos, sem ficar na acusação ressentida. Há muita coisa envolvida que nem todos podemos captar. Portanto, não custar observar com cuidado e lutar para que a democracia se amplie no comabate a todos os desgovernos.São muitos e graves.
    abs
    antonio paulo
    antonio

  • Valéria Moura disse:

    Verdade! Abs

  • Zélia disse:

    Gostei muito do texto, Antonio Paulo. Observar em 360º quase sempre não é uma volta perfeita, há ondulações. – Quando os ministros dos Supremo se apresentaram tão midiáticamente nesse país?! Em tempos democráticos a História revela-se verdadeiramente caleidoscópica; os contrastes e ambiguidades saltam aos olhos, todavia, apenas para quem tem olhos de ver.
    Abraço, Zélia.

  • Zélia

    Qualquer julgamento é mesmo complicado. Na sociedade do espetáculo as visões se multiplicam e as divergências se acendem. Fica confuso.
    abs
    antonio

 

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