Corações entrelaçados, culturas heterogêneas

     

Você deve ter um coração para sentir o coração dos demais( Flaubert). É a declaração radical do sentimento que flui. Se há muros e armaduras, a luz não passa e paralisa. Se se descompõe o diálogo, a mudez revela  o vazio. Cadê  a moradia dos significados e das diversidades permanentes? Quais os atuais pontos de referência, se os dogmas adormeceram carcomidos? Quem se liga, no que acontece, não se esconde. É impossível ter respostas para tudo, mas é anêmico o contraponto inútil.

A emoção não é feita de travessias sem pedras. Os indivíduos podem se atrapalhar com os buracos e suas curvaturas. A coragem tem ousadias e ruínas. As culturas se mesclam, porém não se confundem. Ainda sobram singularidades. Tontos ou não, lemos notícias e não escapamos das suas provocações. As notícias arranham quem se pensa ausente. Elas se propagam.  Não há pertencimento fixos, mesmo nos autoritarismos ou nas censuras mais bizarras. É fundamental está atento aos chamamentos das subjetividades.

Convivências e sobrevivências. Palavras parecidas, com superfícies diferentes. Se as rebeliões abalam e se expandem, os espetáculos também invadem monotonias e inércias. No Oriente Médio, alastram-se recusas do passados ou desmancham-se opressões antigas. Há exigências coletivas, grupos heterogênos compartilhando desejos. Se tudo vai desmoronar-se  é incerto. Mas as impaciências andam montadas em camelos e canhões, aproveitando da força da internet. Independentes das amarguras políticas e dos seus raios de utopia, outros ruídos circulam seduzindo multidões, lugares desconhecidos de quem se veste com a fé e a espada.

Há cortes e sagramento, juntos com risos e bandeiras coloridas. Os sussuros não trazem sempre conspirações, nem os gritos, medos e dissabores. Os extremos podem se tocar ou desprezarem qualquer contacto. Ronaldinho e Rivaldo estão voltando ao futebol brasileiro. Polêmicas, apostas, colunas de debates. Seus clubes acodem outras ansiedades, testemunham as batidas de outros corações. Os pedidos de socorros transitam por culturas, sem medir seus tempos ou seus desequilíbrios. As culturas vivem seus tramas abertas ao pulsar das veias dos seus corpos.

No mundo moderno, muitas revoluções se anunciaram construindo arquiteturas de paraísos. Elas se afundaram nas dissidências dos poderes, nas declamações raivosas, nas mistificações tiranas. Quando não se registram os entrelaçamentos, sucumbem os gestos de comunhão e a ardente vontade de ultrapassar as ferrugens do presente. Mudanças de significados não se consolidam sem firmar a possibilidade de ir adiante, sem entreter-se com as travessuras dos sonhos. A objetividade, quando se impõe soberana, destroça as saídas, rasga as sedas bordadas.

As notícias alucinam, na sua nudez ou nos seus véus escuros, como máscaras. A distância física do outro é uma sobrevivência que as fantasias incentivam. Contudo,  a proximidade é o que move o deserto dos sem lugares. Todos se sentem ameaçados pelo que é conquistado com violência. Observar as pirâmides traz sínteses e lembra  pessoas em busca de outras direções. O que está longe não é estranho. O humano tem seus adágios e sinfonias, mas escuta as as vozes das profecias como sinais. Ninguém se consola com as incertezas do amanhã.

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2 Comments »

 
  • jailson disse:

    Não há tempo, como moeda, que pague dois minutos de olhos fechados pra ouvir as palavras que, escritas, espelham tanta visão.
    Do lado de cá, resta aliviar distâncias, bebendo saudades.
    Abraços, Jaílson

  • Jaílson

    Boa sua visita. Como andam as coisas? Os corações devem estar atentos.
    abs
    antonio paulo

 

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