Lula: as narrativas da doença, do medo e da vida

A doença de Lula caiu forte nas armações políticas. Ele se sentiu surpreendido, depois de construir  fama como presidente do Brasil. Parecia que nada atropelaria sua vontade. Estava disposto a viajar pelo mundo, falar das aventuras, ser incansável. Mas a vida provoca com o inesperado. Surgiu o câncer interrompendo os sonhos, exigindo controle, inibindo ousadias. Restava obedecer aos mandamentos médicos, torcer para não sofrer outros abalos. Seguir adiante, contando os dias, lidando com o cotidiano do hospital e expectativa de milhões de pessoas. Tudo muito incerto, porém havia saídas, o abismo tinha engenharias que o tornavam menos profundo.

A paciência o obrigou a cultivar silêncios, esquecer a agitação. A saúde necessitava de reparos, fundava prioridades, afastava vaidades. A trilha da vida mudou radicalmente. O importante era caminhar, chegando em cada ponto e apostar que existia outros desenhoa otimistas. Nada de pensar que tudo se perdeu, pois as transformações podem trazer olhares diferentes e sepultar desânimos. Lula venceu disputas inusitadas, teve uma convivência com o limite, redefiniu amizades, entendeu mais a fragilidade do humano. A força do querer-bem reforçou esperanças. Os dia passam, sacodem instantes de amarguras ou mostram luzes acesas distantes, porém cercadas de estrelas da sorte.

Retorna a vida política com o ritmo desacelerado. Vai se cuidar, contemplar coisas que desconhecia, valorizar toques que pareciam estranhos. A pressa é mesma inimiga da perfeição. A loucura de conquistar é um delírio. A doença fez Lula observar que mundos, próximos dele, estão  precisando de atenção. Há interioridades e não, apenas, partidos, eleições, compromissos sindicais, adversários coloridos. O sentimento da vida é complexo. As reviravoltas anunciam deslocamentos de geometrias. Renascem formas, curvas acolhedoras, empatias que acenavam como impossíveis. O recolhimento é uma experiência múltipla. Lula não se engana quando afirma que aprendeu com o inesperado. O ímpeto que, antes, o perturbava, ganha significados que merecem outras traduções.

Sua voz não se soltou como deseja, mas agradece porque não a perdeu. Não coloca desconfiança no seu poder de seduzir seus eleitores ou seus companheiros. Há permanências que animam. Como ressaltou, nas entrevistas, conviveu como bombas atômicas, nas terapias químicas, agora que construir outros aconchegos para minimizar as dores da memória. Não negou tarefas imprescindíveis. Retoma, com mais assiduidade, às atirculações com Dilma e promete lutar para que ela seja, de novo, presidente. É um desafio, pois lembra as tensões que tumultuaram a ascensão dela ao poder central. Ironiza o descrédito que combateu.

A história é uma construção de possibilidades. Não custa repetir. O que aconteceu com Lula não é incomum. O noticiário o torna uma pessoa extraordinária. Os seus méritos circulam, não foi um político da mesmice, nem é santo consagrado, livre de todos os pecados. Marcou e marca seu tempo. Há muitas lutas anônimas que conseguem aproximar-se das manchetes. O jogo das hierarquias não fugiu do mundo das mercadorias, das armadilhas sofisticadas. Nem por isso, as astúcias e as coragens de Lula devem ser obscurecidas. Narrar a vida alarga a história, entrelaça trilhas,  enfrenta hesitações do humano. Viver é perigoso (Guimarães Rosa), nunca será diferente.

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6 Comments »

 
  • Silvia disse:

    Adimiro o Lula com todos os seus eros e acertos. Com toda sua vontade de acertar apesar de, muitas vezes,as vaidades falarem mais alto. Mas, como o senhor frizou não é “santo consagado”.

    Abraço

  • Sílvia

    Transformar as pessoas em superiores é ruim e desgasta. É saudável observar também os escorregões e considerar os seus limites.
    abs
    antonio

  • Cecilia disse:

    Professor Antonio Paulo,

    Fiquei muito tocada com esse texto. Talvez por ter passado por algo muito parecido ao que passou Lula, no mesmo período e por também estar curada. Não é nada incomum, nem uma trajédia. Um drama que o recolhimento e a paciência ajudam a passar. E o tempo? Como muda… e o passar das coisas e o ficar também.

  • Cecília

    Muito boas suas considerações. Espero que tudo caminhe bem com você.
    bjs
    antonio paulo

  • Jonas dos Santos disse:

    A realidade da saúde deste país é algo estarrecedor. Lula passou o mesmo que milhares de brasileiros passaram e/ou passam, mas boa parte desta população não possui os mesmos ótimos meios de Lula para se curar.
    É como diz uma música de MV Bill: “…como pode ser tragédia a morte de um artista, e a morte de milhões apenas uma estatística…”

    Seu governo foi revolucionário, no sentido de que olhou para os que nunca foram olhados. Porém, foi marcado pela sujeira, pelo assalto descarado ao dinheiro público.
    Alguém sabe explicar como o filho de um presidente fica rico em apenas 17 dias de governo do papai??????

  • Jonas

    Lula mudou muita coisa, mas não segurou o barco da ética. Isso é difícil num país cheio de pactos. É uma pena, pois ficamos deficientes ainda nas coisas básicas e poucos se enchem de mordomias.
    abs
    antonio

 

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