O fim do mundo está próximo de quem?

Há sempre espaços para a renovação de profecias. Não se fica, apenas, nas tradições, relembrando paraísos perdidos, revoluções desgovernadas. Ninguém deixa de olhar as mudanças constantes. Difícil é avaliar se a sociedade se encontra com o prazer ou festeja o coletivo. Os desenganos são muitos, mas  pessoas promovem  debates, surpresas, acertos  em pactos e conflitos na luta pela dominação. A confusão não é incomum. As religiões ganham lugares nos mercados da fé. Já se foi o tempo dos sacrifícios. Poucos optam pela generosidade, muitos vão para TV arrecadar grana para salvações particulares.

Os anúncios de um calendário maia têm conturbando os ansiosos. Transformam-se as expectativas diante do juízo final. Não se trata mais de  ler a Bíblia e procurar escutar os segredos de Deus. Muitas crenças estão soltas, não existe aquela hegemonia do catolicismo. Surgem igrejas com objetivos obscuros, com adeptos entusiasmados. Não custa acrescentar que o mundo do capitalismo gosta mesmo é das novidades. Não cessa de empolgar seus compradores e trazê-los para curtir sonhos fabricados com a ajuda de tecnologias. Portanto, o espetáculo do final do mundo se monta. Ele revira o mercado, chama especialistas para o debate, ocupa páginas de jornal, alimenta excursões esotéricas.

Há desmentidos, pois as interpretações não são uniformes. O pior é que a sociedade passa por dificuldades imensas. Mortes na Palestina, intranquilidade frequente nos Estados Unidos, denúncias de corrupção em negócios públicos, trabalho escravo continuando a explorar os miseráveis. A lista é imensa. No entanto, sobram notícias. Há quem cultive o mistério com finalidades objetivas de acumular riqueza. Por isso as referências se desmancham, os valores não se fixam, nem as escolhas conseguem definir o caminho. Pensar no coletivo é um desafio. No mundo globalizado, os bancos ditam normas e tudo se inventa para se concentrar privilégios.

A atmosfera de suspeita está presente. Quem pode caminhar com sossego? As armadilhas são bem articuladas, causam espanto, produzem ficções encantadoras. Nem todos querem convivência com a crítica. Enquanto a cartão de crédito respirar, seguem perdidos colecionando objetos. Não seria exagero afirmar que há uma diluição de tanta coisa que proclamar a chegada do fim do mundo convence muita gente. As quebras, as desilusões, as perdas, os desamparos tocam e intimidam. Há quem se recolha, tema o futuro. Os gurus argumentam.

O mito do fim do mundo não é recente. Observe a história. Estamos sempre indo ao passado, criando fantasias de comunidades felizes. As interpretações circulam desde os primórdios. A modernidade sacudiu as tradições e as redefiniu. Exaltou o progresso. Tivemos duas guerras mundiais, fascismos, golpes de Estado sangrentos. Não veio o tão ambicionado o território dos saberes dignos de uma razão soberana e justa. Há quem se desespere e jogue qualquer sinal de transformação radical. Muitos pedem para o mundo cair no abismo. Há um cansaço visível que se entrelaça com a euforia. Não dá para acreditar em profecias, nem esquecer os desmantelos. Os desconfortos nos tornam vulneráveis. Buscamos reconstruções. Mas o que está próximo de nós, atiçando o desejo, nos empurrando para o futuro?

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2 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    Como um fato vira um verdadeiro booom!!! Foi realmente incrível como se passou 2012 falando no dia 21 de dezembro, foi tanta especulação que se fosse coisa de ter ação na bolsa, rendia e muito!!! Perderam-se muito tempo no fim do mundo, programa de televisão foi criado, variedades de revistas foram lançadas, o mercado se mostrou em alta, mas a fome continua na África, indios sofrem com a arbitrariedade policial e milhares de pessoas estão desabrigadas neste imenso país, um desmantelo cristalizado há anos, mas é melhor discutir os maias com o fim de um ciclo do que se preocupar com o humano e sua real situação.

  • Diógenes

    No mundo das mercadorias as coisa ganham espaço e valor para os que vivem do negócio. É muita especulação.
    Bom final de ano para você.
    abs
    antonio paulo

 

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