Eric Hobsbawm: a vida e as (re)leituras do mundo

A morte de Hobsbawm trouxe tristeza. Escreveu uma obra que ensinou muito e não deixou de lado o debate. Não foi um ortodoxo doentio, mas firmou sua posição no campo da teoria. A leitura dos seus livros ajuda a compreender as aventuras da burguesia e a montagem do mundo capitalista. Nada aconteceu por acaso, as transformações bem costuradas arquitetaram a modernidade e teceram seus caminhos. Os ideais iluministas contribuíram para que se refizessem práticas sociais, Não houve homogeneidade, porém rebeldias mostraram que havia descontentamentos profundos. Eric Hobsbawm analisou  os entrelaçamentos políticos e as espertezas da burguesia para assegurar a hegemonia.

A discussão sobre a verdade histórica não se diluiu. Há, sempre, a pergunta que incomoda: com quem está a interpretação mais coerente e esclarecedora dos tempos modernos ou mesmo das andanças do capitalismo? Seria Eric a grande figura que desnudou os mistérios e consolidou uma concepção definitiva para acalmar os mais ansiosos? É difícil consagrar uma obra como indiscutível. As polêmicas são importantes, atiçam reflexões. Um mundo intelectual apático, repleto de senhores da ciência não traz ânimo. É fundamental  aguçar os argumentos do poder, não esvaziar a diversidade, nem sacralizar o que reviraria paciências.

Os escritos de Hobsbawm vão para além de qualquer dogmatização. Há outros historiadores que também balançaram verdades e derrubaram concepções que atravessaram o século XIX. O seu texto é  articulado, valoriza a forma, não fica perdido no meio de  armaduras positivistas. Ler sua obra é uma entrada  para possuir um olhar mais atento às ambiguidades do nosso tempo. As grandes revoluções acompanharam projetos, compartilharam frustrações, retomaram violências. Não dá para comemorar a linearidade do tempo e exaltar o progresso construído pela modernidade. Hobsbawm descreve as armadilhas, sem negar os espaços da inquietação e seus encontros com Marx.

Pensar a história, articulada com pesquisa renovadora, continua sendo um desafio. Os saberes não devem ser guardados em armários. Circular quebra as atmosferas sombrias, anuncia que os acordes dissonantes do jazz significam que a cultura não se completou. O historiador, sufocado pela especialização exagerada, termina sendo um reprodutor de acervos. O risco deve existir, porque passado e presente dialogam fermentando dúvidas. As interpretações mudam, basta observar a trajetória dos modernismos do século XX e suas distâncias dos períodos de dominação do catolicismo. Não faltam exemplos. Os compromissos éticos também não estão mudos e estáticos.  As tradições também se (re)inventam e se espalham com outros significados.

A morte de um intelectual destaca questões que compõem seus escritos. Eric Hobsbawn não deixou exemplo de mesquinhez. Estava abraçado com a crítica , nunca com o cinismo tão comum entre seus pares, adeptos do oportunismo mascarado. Contagiou gerações com a necessidade de fustigar as perplexidades, para não sepultar o desejo de redesenhar o mundo. As discordâncias esquentam o debate, desenham tolerâncias, investigam as razões das dissidências. O autor merece celebração. Sua obra prossegue, não se esfumaçou. Muitas (re)leituras acontecerão. O intelectual (res)sginifica a cultura, quando foge dos conformismos e das arrogâncias. Torna-se vivo, nas metáforas que bordou, na socialização crescente do que construiu.

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2 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Professor,

    Acredito que os historiadores e historiadoras de minha geração, que tiveram o privilégio de ler a obra vasta e encantadora de Eric Hobsbawm, podem até ter um formação incompleta, mas não ficaram imunes ao seu “olhar panorâmico” sobre o “breve século XX.” Quando li este texto, pela primeira vez, comecei a compreender os significados do nosso ofício de escrever história, que de certo modo, ainda nos remete aos ensinamentos de Heródoto: passa pelo ver e ouvir. Assim, escreveu Hobsbawm: “Se o historiador tem condições de entender alguma coisa deste século é em grande parte porque viu e ouviu. espero ter transmitido aos leitores algo do que aprendi por tê-lo feito.” Mas a obra de Hobsbawm também nos traz outros ensinamentos: o da escrita articulada, da simplicidade, da erudição, mas muito mais a compreensão de que “somos parte deste século. Ele é parte de nós. Por isso, parece tão fácil narrá-lo, mas é tão difícil fazê-lo.

    Abraço

  • Rosário

    Concordo com você. Deixou uma marca. Todos aprendemos. Isso é precioso.
    abs
    antonio

 

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