Na busca incessante do paraíso e da rebeldia

Os sinais de pessimismo estão sempre retornando. Não se podem esconder tantas ambiguidades. É cansativo, mas não adianta ficar flutuando onde as nuvens pesadas formam tempestades. Quem conhece a história não deve abandonar, contudo, o ânimo e consolidar as energias negativas. Os conflitos são visíveis. Dialogar com o passado não desfaz as expectativas, já afirmadas em escritos anteriores. No entanto, na luta para sobreviver nem tudo está envolvido pelos farrapos ou carregado pelo cinismo, esperando o juízo final. As escatologias percorrem a história. Não pense que elas pertencem, somente, às religiões antigas. A secularização da cultura não as proibiu. Elas se refazem, trazem convencimentos, ganharam outros nomes.

Nos caminhos do Ocidente, é   comum avistar a força política da Igreja Católica. Ela surgiu e não se separou do poder. Esqueceu muito dos discursos e práticas humildes dos primeiros cristãos. Houve pactos que a trouxeram para os núcleos de decisão dos grandes imperadores. As guerras religiosas continuam frequentes. Provocam instabilidades, desconfianças. Chocam-se com mandamentos, desfiam as promessas evangélicas, criam dissidências. As religiões possuem temas parecidos, contudo disputam espaços. Estranham-se. Pregam a paz e terminam assustando com violências e inquisições. As controvérsias não cessam.

Tudo isso não acontece linearmente. Houve muita resistência aos papas que curtiam os prazeres e os desperdícios. Engana-se quem analisar a Idade Média, menosprezando a fé dos padres, destacando apenas a luxúria. Existiram movimentos de negação. Há lembranças de práticas que defendiam a pobreza. Eram comuns o confronto e a punição dos rebeldes. A Igreja atuava, institucionalmente, sem exercer perdões. Procurava garantir a centralização da  ordem, porém sofreu abalos. Não é à toa que a Reforma de Lutero redefine comportamentos. Nem tudo é unidade e submissão. As sociedades não se constroem apenas com permanências. Olhar a história por dentro, facilita observar os vacilos e as contradições.

A chegada da modernidade atiça revoluções. Elas já apresentavam seus sinais em épocas anteriores. Não há negar que o mundo do século XVIII tem outros significados, mas muitos cristãos combateram a miséria. Reivindicaram renovação social. Cada rebeldia no seu tempo, consagrando s limites, recordando paraísos que, talvez, nunca tenham se instituído. O imaginário coletivo arquiteta fantasias, subverte profecias, acredita em purificações. Não se trata de jogos de ilusão diante da força das opressões. O desconforto atinge a sensibilidade, não morre nas prisões e nas censuras dos poderes uniformes.

As utopias modernas firmam-se no território dos sonhos. Quem conhece as teorias políticas do século XIX  sabe que elas não se ausentaram da luta pela desigualdade. Nem sempre os confrontos se deram nas ruas. Atiçavam debates e esperanças. Portanto, o mundo procura  paraísos. Se eles moraram no passado, segundo as lendas e os mitos, não há  razão para desprezá-los. Nas ondas turbulentas que navegamos, hoje, a imaginação ainda não se obscureceu. Existe quem cultive ódios, evite mudanças na socialização. Nada sugere, porém, que a conformidade é geral. A história, com suas repetições, também é lugar de desobediência e de fôlego coletivo. Os vencedores impedem que os sonhos se espalhem com velocidade. Mas eles persistem.

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