O novo aparece ou tudo se disfarça na celebração?

                          

Tropa de Elite 2 conseguiu um feito marcante. Desbancou muitos filmes famosos e  se tornou campeão de bilheteria no Brasil. Atrai multidões e nem mesmo o pós-moderno Avatar segurou a vantagem que tinha. Méritos para quem trabalhou na realização do filme. Mostra a curiosidade da população, o que ela procura, o que a move, quando resolve se ligar nas especulações sobre a violência e a corupção. A sociedade  passou por mudanças, mas não se desfez de certas  aberrações para quem pretende se firmar na democracia. Por isso, diante das melhorias, sobram expectativas que as ficções alimentam em cada um.

A ficção não sugere mentiras ou concepções, meramente, fantasiosas. Há um diálogo constante do real com a imaginação. Suas fronteiras são tênues. Os lugares da cultura vivem dos seus significados. O artista não está isolada, numa solidão sem retorno. É um observador, se toca com o mundo que o cerca. Não perde, porém, sua capacidade de invenção. Olha a fragmentação dos desejos sociais e tenta colocá-la nas suas obras. Não foge de uma pedagogia que muitos não percebem.

Ninguém se sustenta  valores, numa negligência perene. Criamos concepções de mundo para opinar e escolher os caminhos. Daí os conflitos ou as articulações coletivas na procura de solidariedade. O movimento faz parte da cultura. Não há um ritmo único, nem um planejamento que silencie as oposições. Num planeta com bilhões de moradores, fica difícil fixar um modo de vida que satisfaça todos. Com as conquistas tecnológicas, a discussão sobre o bem e mal ganham espaços complexos. As relações de poder se dão numa extensão internacional.

A violência e a corrupção não incomodam apenas pequenos grupos. Ela se espalha. Toma conta das elites, angustia intelectuais, desmancha crenças religiosas, fomenta o mercado das drogas. O processo civilizatório não venceu as instabilidades, nem visualizou uma ética que sossegasse o mundo. Não é desconfortável duvidar se existe mesmo esse processo civilizatório? Há sentido para as descobertas ou para os anseios humanos? Tudo é um jogo arquitetada por um grande mágico?

Das tragédias de Sófocles, das profecias judaicas, dos relativismos dos sofistas, das ironias de Voltaire, muito se manteve ou se misturou com tantos outros pensamento e emoções. Contabilizar os feitos culturais é impossível. Consagramos a arte de Pelé, as ousadias estéticas de Dali, as escritas de Borges, os sertões de Rosa, porém é perigoso afirmar hierarquias ou querer testemunhar o homogêneo. Ele tem o perfume barato da mediocridade.O ser humano se acede com muitas luzes. Não dispensa os medos das trevas.

Falamos em evidências, clarezas, eternidades e concretizamos alguns sonhos. Mas pouco conhecemos de que matéria somos feitos, quem está com a razão ou quem definirá o futuro. Apontamos juízos finais ou mergulhamos nos oceanos dos absurdos. Os dias passam com gosto de permanência. De repente, algo descontrola o cotidiano. Por quê? A nossa subjetividade balança, confessa suas fragilidades e respira para aumentar seus espaços. O circo se arma e fotografamos momentos. Fica o suspense. Até quando o espelho conversará com as rugas das nossas faces?

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    É muito bom começar 2011 compartilhando de um texto tão instigante, que revela o artista e sua obra, com a magnitude de quem sabe “observar”, “se tocar com o mundo que o cerca”, sem perder “sua capacidade de invenção. Que sabe “olhar a fragmentação dos desejos sociais e tenta colocá-la nas suas obras”, no horizonte de uma ética solidária, que ressignifique os anseios humanos.
    Seu texto Antonio, traz profundidade e a “imensidão”, que Diego (o menino de Eduardo Galeano, do Livro dos abraços) deve ter sentido diante do mar (quando “ficou mudo de beleza”) e pediu ao seu pai: “Me ajuda a olhar!”
    Muito bom ter Rezende, Galeano, Borges, Rosa, e tantos mais, que com sua Arte, nos ajudam a olhar, animam o nosso espírito, minimizam o medo das trevas e nos lembram (como Mia Couto) que “o sonho é o olho da vida”.
    Parabéns, Ulisses, pelo crescente afinamento do olhar, pela escuta atenta, pelas palavras que acendem a nossa sensibilidade e ampliam os espaços de reflexão.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    A vida é o encontro, mas a sociedade atual corta o compartilhar.Quebrar o individualismo é caminho para reatar o encontro.
    bjs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>