O ofício do historiador: as travessias e os destinos

Quem pensa que está tudo escrito pode sentir surpresas e desmontar-se. Sei que muita gente mergulha nas fatalidades:prevê o futuro como um jogo de cartas marcadas. Engana-se com alguns sinais que se repetem e desiste de descobrir. Fica curtindo o mesmo som e se veste de uma melancolia perene. Não é que a vida seja uma calmaria. As agitações são constantes. Nem tudo é desespero, apesar do caos que se instala na complexa globalização. As tecnologias possuem usos ambíguos e perigosos. Não custa, no entanto, olhar firme , decifrar os mistérios sem ansiedades.

Não gosto de somar pessimismos, porém sinto que os valores se fragmentam com uma velocidade medonha. São muitas novidades, notícias vazias que brincam com as ambições e os delírios da moda. Não é incomum perdas e faltas de perspectivas. Os monopólios criam punições sistemáticas. A velha desigualdade não se foi. Sustenta religiões e autoritarismos. Não é fácil admitir certas regras e comungar com ordens opressoras. Contudo, o espaço da transgressão não desapareceu. O mundo tem muitos caminhos e geometrias com figuras múltiplas.

Os historiadores divertem-se ou angustiam-se com as explicações que inundam as academias. Há também os modismos, altares sagrados que fascinam e trazem orações contínuas. Tantas dúvidas, porém muitos aceitam análises únicas e adormecem em conceitos fechados. Sentem-se ofendidos quando o debate esquenta. Esquecem a vida, moram nos conhecimentos com se existissem eternidades. A sociedade não está isolada, nem a história se compõe de sinfonias que não saem das tradições musicais.

Vejo que o inacabado nos acompanha e nos incomoda. Daí, os sustos, as divergências, os conflitos, os desejos, os compartilhamentos. As sociabilidades resistentes não resumem o vaivém do tempo.. Quem não enxerga as transformações pode mergulhar numa ingenuidade doentia. Não vamos, no entanto, consagrar as novidades e aumentar o lixo que nos cerca. É preciso está atento ao descartável e não anular o que parece estranho. Configurar que destinos absolutos regem o ir e vir é um rico incomensurável.

É sempre escorregadio acreditar, sem hesitação, nas leituras do passado. Há quem se apegue a regras e não  visualiza as incertezas. Pensa que pode traduzir o vivido sem grandes problemas. Fica escravizado pelos acervos. Encanta-se com astuciosos dogmas seculares. Aprende lições, sem observar que as mudanças desfizeram hábitos. O ofício do historiador é, portanto, território de conflitos. Produz-se numa diversidade de interpretações. Certeau, Marx, Gramsci, Rosa, Chartier, Benjamin ficam na berlinda. Mesmo na academia os ídolos possuem seus lugares e os modismos se estendem.

A vida corre, independente das teorias, mas dialoga com reflexões. O exercício do saber nem sempre significa a construção da possibilidade. Duvidamos dos sentidos, as turbulências quebram. Não há como estar na história longe dos devaneios e dos planejamentos enganosos.. A vida contemporânea é agitada, fermenta invenções que não cessam de seduzir. Talvez, tenha havido um tempo de sossego e de paraísos. Não custa especular. O futuro retomará o que foi jogado fora? Ou o destino é, apenas, uma fantasia para estimular profecias? O que permanece no pesadelo do sono incompleto?

 

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