O ziguezaguear nas poeiras da vida e do tempo

Ziguezaguear. Um verbo pouco usual, quase desconhecido, raro nas conversas, presente em alguns discursos literários, mas expressivo para decifrar os tempos da vida. Ele traz um significado soberano, definitivo para acender as tantas multiplicidades que nos acompanham. O que fica é a ideia  de sinuosidades constantes. Desmonta aquele desenho linear que alguns gostam de atribuir às aventuras do mundo, Posso até afirmar que é um verbo geométrico. Lembra o caminhar de quem se embriaga à toa. Não falo das bebidas ou das drogas. Quem dispensa as fantasias, risca do caderno as teorias de Freud ou as pinturas de Matisse?

Não sejamos monopolistas. Para além da psicanálise,  sonhos se espalharam pelas sociedades,  mitos representaram desejos, poetas traduziram sentimentos. É difícil restringir a dimensão do que existe na cultura. Surgem invenções, novidades, rupturas. No entanto, seria desproposital imaginar um tempo sem qualquer vestígio do passado. Isso vale para a subjetividade mais escondida, com também para as ações coletivas e solidárias. Há repetições, retornos, círculos. As permanências não são fotografias realistas. Tocam no que foi vivido, sem negar abertura para o futuro. Essas reflexões causam transtornos nas andanças dos historiadores. Há quem as renegue de forma radical.

Ziguezaguear. Italo Calvino é mestre de disfarces. Sua gramática do tempo é no mínimo surpreendente. Não demonstra preocupações em consolidar verdades. As conversas de Marco Polo com Kublai Kan misturam artifícios e astúcias. O leitor contempla, no presente, figuras que se foram de territórios fisicamente delineados. Quem não acredita em tapetes mágicos se satisfaz com as liquidações das Casas Bahia, pensando em enganar a solidão cercado de objetos eletrônicos. Com certeza, o mundo de Ulisses é um exemplo histórico. Não há, porém, nada na sua sagacidade que nos encante ou nos perturbe? Por que se configura o poder de transcender o momento e distrair-se com as passagens da imaginação?

Portanto, os vestígios não são poeiras de estradas comuns. A vida não se fixa, dando garantias de futuros construídos com os perfumes do passado ou os planejamentos do presente. Estamos além do corpo, da matéria que se extravia e apodrece. Não se trata de renovar a força das religiões ou convocar divindades esquecidas. Cada instante se multiplica, porque não se resume ao contar dos ponteiros dos relógios. Não basta o número, a certeza da hora oficial. O afeto se encarrega de fermentar as misturas.

 Às vezes o espelho aumenta o valor das coisas, às vezes anula. Nem tudo que parece valer acima acima do espelho resiste a si próprio refletido no espelho( Italo Calvino). Não precisa muito esforço para observar como os espelhos frequentam nossas metáforas. É possível localizar quem os inventou? Talvez, existam fundamentos em determinadas coisas que sepultam qualquer esclarecimento. Não vejo nisso um pecado ou uma punição. A imaginação estica-se quando as dúvidas se mantêm. Se tudo tiver uma resposta, o cosmo se abraçaria com uma só cor e o tédio evitaria estranhamentos. O jeito é ziguezaguear. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas( Italo Calvino).

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2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    A imaginação é um campo complexo que ao ser carregados e definidos com todas suas criações, os mesmo passam a dar significados aos valores das coisas; nos propõe uma reflexão acerca de suas verdades e questionamentos que são por elas descritas. Posso não acatá-la com verdade, assim como posso dar outros sentidos ao seu direcionamento, aliás é através de suas várias interpretações que mergulhamos em outros mares.

    A sua reflexão torna-se muitas vezes ambígua, é aí que mora o perigo, pois sua transposição caminha em vastas direções no que diz respeito a construção das palavras e da vida. A sua configuração reside em fundamentarmos os seus significados em algo que não sabemos, porém é possível desenhá-las a partir dos questionamentos do seu tempo na história.

    A construção do mito é uma coisa séria e não deve ser descartada como algo inválido, pois suas abordagens e seus pensamentos contribuíram a ser o que hoje somos.

    Abs

  • Emanoel

    A imaginação nos tira da mesmice. Isso é fundamental. Fazer sempre a mesma coisa é fim.
    abs
    antonio

 

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