Os desencontros profundos e a construção da sociedade

As crises fazem parte da história. Seria um engano apostar numa sociedade linear, sem diferenças, com culturas marcadas pela homogeneidade. Mas há leituras diversas  para o significado das crises. Elas produzem tensões e podem ajudar a derrubar comportamentos apáticos. Nada como o refazer de certas teorias, o quebrar de preconceitos tradicionais, o desejo de abraçar otimismos criativos. Não vamos amaldiçoar as crises. Já aconteceram revoluções que trouxeram espaços de liberdade importantes. No entanto, quando a sociedade mergulha em descontroles que reforçam desigualdades e a história assume perplexidade e desmantelo, a ameaça do caos é desanimadora.

As economias estão sofrendo abalos contínuos. Há uma desconfiança que invade muitas atmosferas. Mesmo essa sede de consumo que assanha a sociedade brasileira não garante uma arrumação razoável dos tantos desacertos seculares. Portanto, as tensões existem. O modelo continua sendo concentrador e mudam os valores. A maioria curte a superficialidade, com fechados para o coletivo. Há exaltações fabricadas e perigosas. Não é necessário escancarar a porta do pessimismo, porém não custa minar certas previsões. Se o básico ainda está repleto de carências, não se deve apossar-se das coisas, enchendo-se de mercadorias achando que a qualidade da vida se estende.

A situação da Europa é de uma instabilidade contínua. A Espanha tem o Barcelona, gasta milhões com o futebol, porém vive um desemprego assustador. Tenta diminuir custo, resolve dívidas, erguer as instituições financeiras. As notícias se desencontram, a população perde direitos, a urgência não quer perdão. Parece que aquela fantasia de desenvolvimento e modernização desenfreada sucumbiu. Há fuga de captais e de pessoas, em busca de alternativas diante de sufocos repentinos e assustadores. Grécia e Portugal também estão escorregando nas suas contas, com a crise se prolongando. Os antigos colonizadores sofrem desencantos frequentes, a história não uma sinfonia única e harmoniosa.

Diante de desesperos e divergências, o mundo costura sua globalização. Há regiões onde a miséria não se afasta e a violência não diminui. Os exmplos são muitos. Recordá-los traz incerteza. Por que as repetições, as minorias enfeitadas com privilégios e as maiorias catando sinais de sobrevivências? O muro da lamentações persiste. Há quem afirme que possuímos uma natureza egoísta. Outros consagraram a possibilidade de mudanças, a reformulação dos valores, o desfiar dos individualismos, a desmanche do culto ao consumo. A travessia é complexa, porém as divergências animam. Pior seria um consenso sobre o descaso e destino. A história não se fez sem conflitos e desajustes.

A memória ajuda-nos a visualizar as heterogeneidades. Os feitos culturais dos gregos ainda perduram no pensamento ocidental. Os descobrimentos incentivaram genocídios, mas houve também conhecimento de outras culturas. Da Vinci atiçou reflexões, Montaigne meditou sobre seu tempo, Rousseau denunciou injustiças, Nietzsche proclamou a morte de Deus. A crise atual apresenta outras perspectivas para quem não adormece no mercado. No meio de tanto objetos inúteis muitos pensam sobre os naufrágios e desafiam as dominaçoes. A memória borda lembranças de reviravoltas. Há momentos onde a respiração flui e os trapézios se balançam. O mundo não possui só vitrine e conspirações narcisistas.

PS: Só haverá mudança no texto no dia 14 de 2, depois do carnaval. Uma pequena pausa no meio de tanta folia e agitação…

 

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2 Comments »

 
  • Elânia disse:

    “A crise atual apresenta outras perspectivas para quem não adormece no mercado”.

    Admirável professor,adorei o texto. Viver em meio a crise e não se deixar influenciar pela suas negatividades é para heróis. Seremos heróis quando não aceitarmos as dominações e Criarmos nosso próprio mundo.

  • Elânia

    Grato pela sua participação. Ela dá voz ao texto e cria diálogo. Com certeza, temos muito o que fazer nesses tempos tão contraditórios. Os desafios podem nos ajudar a entrara na luta. É importante é manter refelxão.
    abs
    antonio

 

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