Os vastos territórios das narrativas e da vida

            

Há narrativas lineares que seguem caminhos, geometricamente, sem curvas. Alinham os fatos e formam sucessões. Não privilegiam a surpresa. Contam a vida que se define pela repetição. Elegem destinos, não se propõem a decifrar nada. Exigem passividade e pouca invenção. Não inquietam e cansam. Quem deseja aventuras e astúcias fica marginalizado. Escutar a mesmice ou tornar a existência um acúmulo de ordens indiscutíveis é anular a possibilidade da magia. Interpretar os atos humanos, observar as flexibilidades, desenhar cartografias inusitadas garantem narrativas que seduzem e não adormecem.

Gabriel Garcia Márquez(foto) escreveu o famoso Cem Anos de Solidão. Muito lido e discutido, permanece exemplar. Macondo sintetiza a própria história da cultura humana. É uma cidade, isolada do mundo, mas que não nega a multiplicidade dos desejos e das coragens. Não faltam amarguras, amores, devaneios, tecnologias, ciganos, políticos. A vida não é o abandono da perplexidade. Não cabe, apenas, um discurso do método para tentar compreendê-la. Os riscos e os espelhos quebrados fazem parte da moradia de cada um. Há paredes pintadas, mortes cruéis, vinganças minuciosas, violências planejadas. As palavras não conseguem resumir o vasto território das narrativas. O novo e o velho criam armadilhas.

Há quem critique Gabriel. Acham que transgride, excessivamente, nas costuras da imaginação. Preferem colar suas histórias nas angústias pós-modernas, na soberania dos objetos, na frustração das crenças. Não é necessário condenar o outro, para exaltar sua escolha. As narrativas convivem com as diferenças. Cada época acena  vicissitudes e requer sonhos que desfacem  monotonias. Não esqueça uma coisa: essa gente toda que desapareceu no rio está agora mesmo, olhando- nos pelos olhos deste bicho. Não esqueça. A citação de Mia Couto, escritor contemporâneo, parece estranha no meio do texto. Mergulhe, porém, no seu livro Um dia chamado tempo, uma casa chamada terra. Exercite sua andanças pelas metáforas e se pergunte: até onde Gabriel e Mia se tocam nas fantasias?

Um dia revela circunstâncias que puxam reflexões profundas. Depende da forma como a narrativa é traçada. Nós bordamos tantas conversas, contamos tantos desmantelos e não devemos negar a nossa capacidade de narrar. Experimente, na solidão, reafirmar miragens, a busca para se distrair dos naufrágios. Faça como Freud, tenha fundações no sangue e abra o tempo dos sentimentos tolerantes. Um dia pode significar uma eternidade ou um encontro decisivo. Duvida? Leia O dia do escrutinador de Italo Calvino e navegue pelos nos seus mares pouco explorados.

Somos como Chapeuzinho Vermelho visitando a vovó doente, pensou Amerigo. Talvez, ao abrir a cortina, já não encontraremos a vovó, mas o lobo. E depois: Toda vovó doente é sempre o lobo. Calvino nos remete aos arquétipos infantis. Os contos que marcaram os primeiros anos tão entrelaçados no imaginário de cada um? Desafia quem se sente distante do passado e desfia a força da simultaneidade. Seu personagem, Amerigo, num só dia coloca em questão verdades que eram inabaláveis. Redefine  a afetividade e os princípios. Não cogitava que passaria por atribulações num momento tão singular. Mudou concepções, desconfiou de outras. Saiu do subterrâneo do eu, para contemplar a luz dos outros.

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10 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Alguns escritores têm a peculiaridade de nos mostrar caminhos na narrativa que fogem ao lugar comum. Com toda certeza, a máxima matemática “o menor caminho entre dois pontos é uma reta” não cabe nas grandes narrativas. É a sinuosidade o padrão. É o que embeleza, prende, seduz.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • João Paulo Lucena disse:

    Não há nada com um livro que suscite em nós laços de identidade com os personagens/autor. Livros como A metamorfose, de Kafka, e Ratos e Homens de John Steinbeck mostram através de seus personagens um pouco da angústia de nós mesmos frente um mundo tão inconsistente, “comum” e presente. Sentimo-nos insetos frente um mundo casulo, que se mostra inflexível e indiferente. Comumente somos tentados a assumir um estado de sanidade social. Imagino um Gregor Samsa no século XXI. Após sua metamorfose ele acordou, mas e hoje, teria ele acordado? E se sim, teria ele notado?

    abraços,
    João Paulo

  • Rosário disse:

    Olá Professor,

    Gosto de pensar que a definição certeauriana de que “ler é cultivar/colher no campo do outro” possiblita nossas astúcias. Ler Gabriel Garcia Marquez,Mia Couto, Italo Calvino Eduardo Agualusa e tantos outros faz a gente pensar que o real e a fantasia se encontram, muito mais do que podemos supor. Mas será que existe essa dicotomia? Onde está o real? Onde habita a fantasia?
    Sei apenas que essas narrativas sinuosas, misteriosas e cheias de supresas são desconcertantes. Como ler O Dia de Um Escrutinador e não se inquietar com a suposta fixidez de conceitos como humano, beleza, forma, democracia, cidade?
    Como não se maravilhar diante da simplicidade da definição de amor: “o humano chega onde chega o amor; não tem fronteiras, a não ser as que lhe damos.?”

  • Rosário

    Pensar que as fronteira são múltiplas traz outra dimensão para a vida. Facilita a comprensão e estica as possibilidades.
    abs
    antonio paulo

  • Manuela Arruda disse:

    O que me encanta na literatura é o poder de síntese. Alguns escritores conseguem expor possibilidades de leituras de mundo tão ricas e tão vivas. E o melhor… Não há necessariamente compromisso com as “camisas de força” que a Academia, por vezes, impõe à escrita de narrativas.

  • Manuela

    A literatura permite voo, é solta e vive em paz com a beleza.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo Lucena disse:

    Quando a Gabriel, nada li dele ainda.

  • João

    Não deixe de ler. Vai gostar muito.
    abs
    antonio paulo

  • Juany Nunes disse:

    Nossa, já li sete livros de “Gabbo” e quanto mais leio mais me emociono com a sua narrativa, o seu jeito tão íntimo de contar estórias e por isso que ele é tão bem lembrado e fonte de tanta admiração, até agora não li algo que chegasse perto à sua forma de escrever.Cem anos de Solidão, Amor nos tempos do Cólera e Memória de minhas putas tristes são um dos livros mais importantes da minha vida porque tratam justamente do que está tão perto e que por vezes não compreendemos e se tentamos compreender, na maioria das vezes,para dar nome à nossas repetições,inquietudes e sim a afetividade, o amor, seu sentido,sua esperança, ou o que de fato isto nos representa e em que sentido se faz presente?
    Aprendemos que quando conhecemos nossas dores e procuramos compreende- las fica mais fácil conviver com elas…
    “E eu descobri que não são os amores felizes que mexem o mundo, mas sim, os contrariados.” (Amor nos tempos do cólera)

  • Juany

    Também leio Gabriel com prazer. É um mestre.
    abs
    antonio paulo

 

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