Paris, simultaneidade, Woody Allen, devaneios

          

Quem pensa que a história segue um caminho reto, pode esconder-se num quarto escuro. É difícil observar continuidades seculares. A sociedade se desloca, redefine suas permanências e prefere as curvas. Não há a negação absoluta do passado. Seria impossível. Ritmos diferentes acompanham a sinfonia singular do tempo. Ela é única. Deixava santo Agostinho perplexo. A arte não cessa de buscar formar para mostrar as simultaneidades, as idas e vindas, o poder imenso das fantasias. Não faltam filmes, romances, pinturas que nos levam a sonhar o futuro e viajar nos tapetes mágicos. O real é tão confuso e, às vezes, tão mesquinho.Merece desprezo.

O último filme de Woody Allen se envolve com as intrigas do tempo, Convida-nos para sair da vida e sua concretude enfadonha e nos arrasta para outras imagens. Paris é o cenário. O século XX se mostra nas suas décadas de riqueza criativa indiscutível. O mundo do modernismo se apresenta, nos seus debates e nos confrontos com a tradições. A época das vanguardas já presentes com os impressionistas e suas ousadias, assustando os mais conservadores e desmontando a estética clássica. Lautrec, Hemingway, Picasso, Gertrude Stein participam de uma ficção complexa, para quem desconhece as reviravoltas nas concepções de mundo da modernidade.

Nem por isso, os diálogos não se perdem e o espectador desanima. Todos se tocam. Caminhar com a ficção e imaginar amores, conversas íntimas, belezas e inquietudes. O cinema mantém soberanias que desfazem o cotidiano das TVs. A atmosfera continua mágica, mesmo que, lá fora, os ruídos do shopping se adensem. É uma pausa para compreender as arquiteturas infinitas dos sonhos. Cada um na sua trilha, desenhando seu futuro ou se embriagando com nostalgias remotas, mas nunca desmontadas. Woody segue com humor, não apaga o inesperado, nem tampouco os contrapontos fundamentais para se escorregar pela vida.

Recordo-me da tão citada reflexão de Agostinho: Há o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras, o presente das coisas passadas. Talvez, a ordem das palavras não seja igual. No entanto, o importante é cantar os mistérios da vida, refeitos e desconstruídos, pelos devaneios. Podem parecer assombrações, delírios, loucura. O escritor queria sua obra e , por ela, entregou-se sem medos. Nada acontece sem desacertos ou incompreensões. Os lugares estão na nossa frente ou, apenas, vagueiam pelas nossas ilusões. Qual a medida da felicidade? Nem Freud sabia e a achava distante. Portanto, há pausas para desfrutar serenidades e traçar geografias de paraísos.

 Tudo possui sabores efêmeros, mas atiça a mediocridade dos que cultivam a preguiça dos bem-pensantes. A arte articula-se com a vida, é um movimento de transcendência.O tempo é largo ou estreito, labiríntico ou burocrático. O jogo das invenções tem regras, a cultura se borda nas aventuras de Ulisses. Não é curioso que as tragédias de Shakespeare sacudam os sentimentos da pós-modernidade? Não é ousada a obra de Picasso ? E o Kafka, Dali, Debussy, Victor Hugo, Montaigne… As escolhas são arbitrárias, porém movem sensibilidades. Aprisionar o tempo no imediato é firmar  pacto com a coisificação da vida.

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8 Comments »

 
  • Paulo Marcelo disse:

    Caro Mestre,

    Não sei se ainda recordas mas escrevi sobre este filme , no seu blog
    logo apos sair do cinema dias atrás .
    Fiquei encantado e alegre ao saber que ainda existe mentes como Woody Allen, o filme é uma alternativa ao pragmatismo consumista
    desses novos tempos. Achei o filme bem parecido com as suas mensagens ,,,,,,,,, tudo de bom……..

  • Paulo

    É um grande filme, você tem toda razão. Merece nosso encanto. Grato,
    abs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    O filme é realmente lindo.É um suspiro de poesia num cinema que agoniza nas tramas do comércio e do lucro.
    O texto está belo!
    abs

  • João Paulo disse:

    Adoro Woody Allen, é um dos meus escritores favoritos. Já como diretor, este fora o primeiro filme que assisti. E, diga-se de passagem, adorei! Uma coisa interessante que notei é que tanto no filme Meia Noite em Paris, quanto num conto do livro “Que loucura!” – conto este a propósito no qual o protagonista conhece um mágico que o transporta para o livro Madame Bovary -, ele, Woody Allen, deixa transparecer um misto entre fascínio e respeito, senão medo, por um passado que por vezes considera morto, e anseio por mudanças no presente, guardando senão sonhos, esperanças e incertezas com relação ao futuro. Neste sentido, muito nos diz a respeito desses dois personagens em particular a famosa frase popular: “O futuro a Deus pertence!”
    Ao deslocar-se por meio de uma máquina do tempo, seja ela qual for – diferente seja no livro quanto no filme -, seu personagem estabelece uma ponte entre presente-passado. Neste sentido, o diálogo é permeado por permanências e mudanças. É tamanha a oscilação entre elas que, por vezes, achamos que uma se sobressai à outra. É incrível. O eterno desejo de mudar o passado, de ser o dono da história é ponto comum. Gostei muito do texto do senhor. Achei pra lá de adequado a frase de Agostinho: “Há o presente das coisas presentes, o presente das coisas futuras, o presente das coisas passadas”. Lembrando-nos que àquele futuro, propriedade de Deus, cujo conteúdo é incerto e obscuro a olhos alheios, um dia também fora passado. Paradoxo, sarcasmo, ironia, frustração, leve dose de humor e bela trilha sonora. Um belo filme!

  • João

    Muita boa sua colaboração. Enriquece o debate e traz novos olhares. Grato pela ajuda.
    abs
    antonio paulo

  • Monique

    Concordo. O filme é um encanto. Vale muito, como um tapete mágico.
    Grato.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo disse:

    Só acrescentando: o nome do conto mencionado é “O Caso Kugelmass”, da coletânea “Que Loucura!”

  • João

    Certo.
    abs
    antonio

 

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