Quem pode falar de perdão nas escadas da fama?

Pedir perdão é algo raro, sobretudo quando é feito publicamente. Usa-se muito a desculpa, palavra presente no cotidiano. Quase sempre repetida, sem nem passar pelo coração. Faz parte dos bons modos mecânicos, mas frios e desprezíveis. Diz o dicionário que perdão é remissão de pena, castigo, ofensa. Quem o pede, reconhece seus erros, quer encontrar outros caminhos.

É difícil a sinceridade,  numa sociedade vigilante e controlada. A fama não tem lugar fixo. Neymar tem assumido atitudes que ameaçam sua posição celebrada de craque. Milhões circularam tentando levá-lo para outras paisagens. Isso é uma história que se esfumaça. A velocidade da notícia é ambígua. Serve para uns, mas causa prejuízos para outros.

Neymar completou 18 anos. De repente, tudo se desenhou  num espelho de imagens de sucessos incessantes. Gols, vitórias, fotos nos jornais, conselhos de Pelé. Seus espaços se ampliaram.Tocaram no infinito. Talvez, custe, para ele, um peso que não esperava. Ele é ídolo.  O futebol anda mal, sem conseguir talentos e o Brasil sem forças para impedir o assédio externo.

Sempre destaco que, no mundo da grana esperta, as relações de poder comandam as negociações com objetivos sinuosos . Quem fica, no altar da mídia, não tem sossego. Quando possui experiência, vacila menos, dribla as situações embaraçosas. Neymar sente que as condições de sua vida mudaram. A onipotência se eleva e o encontra sorridente, disposto a recebê-la.

Perdão é palavra com tons sagrados. Alterar seus sentidos tradicionais é um ato de coragem. A carga pode diminuir, a insônia se desfazer, a televisão exibir a imagen de menino perdido com tanta badalação. Enfim, mais uma travessura do garoto, recriminada por todos, comentada pelas torcidas, amaldiçoada nas declarações do seu pai. A memória não é, no entanto, tão vadia e volúvel, mesmo na sociedade do descartável.

Na história, há momentos de perdões comemorativos: no fim das guerras, nas derrotas políticas, na morte dos inocentes, nas parábolas religiosas. Nem todos têm a obrigação de aceitá-los. Perdão não é esquecimento. Quem o formula espera encontrar boa acolhida, contudo as incertezas permanecem. Há um certo alívio, quando a publicidade se estende e as respostas são simpáticas. Aquela velha questão: vamos para frente que atrás vem gente.

O rebuliço foi grande e Neymar se observou cavando um abismo imenso. Seu técnico na seleção mostrou temores. Dorival Júnior assustou-se, seu time fica em suspense. Chega de ousadias improdutivas! Os discursos da disciplina ecoaram em todos os meios de comunicação. Perdão público, para condenação pública. O jogador estava tenso e triste nas suas declarações.

A instabilidade desequilibra , quando impera o instante das festas fabricadas e das seduções milionárias. Parece até uma estrada sem volta, com pedras atrapalhando a liberdade de correr e mergulhar na leveza do sonho. Ninguém deseja o fracasso de Neymar. Só os invejosos doentios, os que  vestem as frustrações dos outros.

Quando o comportamento se redefinir na prática, o perdão poderá desfiar os bordados desbotados. Ele tem seu ritmo interno impenetrável. Longe dos microfones da TV Globo, os ruídos são outros. A sociedade não silencia. A docilidade faz parte das boas maneiras.

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4 Comments »

 
  • Paula disse:

    Antônio, li os dois últimos textos postados. Hoje tive um dia que deveria ter sido normal! Fui p o cursinho p estudar… no entando, no meio da tarde chegou a noticia de que quatro carros de alunos foram arrombados numa rua , ao lado do curso. Fui p casa… ao chegar em casa ganhei um prêmio, minha filha dormia como um anjo ( a visâo do paraíso) . Não demorou qdo escutei um grito vindo da rua, mais um assalto… fiquei pensando : o quê está acontecendo com o mundo??? e me veio uma tristeza profunda, uma desesperança… “coincidência ” ou não li seus textos… perdão, capitalismo…. minha angústia passou , seus textos me fazem ter fé na vida e acreditar um pouco mais na humanidade…
    Mais uma vez, muito obrigada!
    Um abraço

  • Pandora disse:

    Gosto de acompanhar as idas e vindas desse garoto, 18 anos, muito novo, um garoto mesmo e já tão parte de uma engranagem muito mais forte, muito mais velha, muito mais esperiente que ele… não chego a ter pena, afinal ninguém é digno disso e ele fatura em um mês o que não faturarei em toda uma vida de trabalho pesado, mas quem afinal de contas consegue torcer contra alguém tão jovem e tão notadamente brilhante em seu campo profissional???

    Perdão, as vezes, quando observo o contexto do qual o Neimar está imerso, me pergunto, se tudo ele é quem não vai ouvir pedidos de perdão!!!

  • Minha cara amiga
    A vida no meio da fama é terrível. Jogam as pessoas comoobjetos. Neymar precisa de conversa. Está tonto, pois não tinha formação para tanta manchete. É muito jovem. Termina sendo triturado, pela falta de afeto e limite.
    abs e grato pelas leituras.
    antonio paulo

  • Paula

    Grato pela emoção. Escrevo mesmo para dialogar e compartilhar as dificuldades do mundo. Infelizmente, a sociedade alimenta essa competição. Sempre falo isso nas aulas. Nem todos se tocam. O individualismo é grande, mas mesmo quando escrevo mais sobre futebol, deixo espaço para cuidar das outras coisas. Não custa reclamar e ter sensibilidade.
    abs e bom domingo
    antonio paulo

 

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