Quem precisa de ídolos para viver?

Ninguém vive numa solidão absoluta. Sem conversa, afeto, trocas não haveria cultura. A história se costura com os contatos, mesmo que tragam divergências e conflitos. Ficamos, muitas vezes, escondidos em algumas questões íntimas, mas o diálogo com o mundo nunca é interrompido. Animais sociais, seguimos nossa trilha acidentada e surpreendente. Amores, ressacas sentimentais, competições e a vida cheia de aventuras que circulam em ritmos desiguais.  Não esqueçamos as divindades que acompanham as crenças e a busca da onipotência. Quem não sonha com a salvação e não desenhou um paraíso com sossego pleno?

Numa sociedade tão tumultuada, repleta de desencontros, não cessamos de configurar saídas, derrubar portas, refazer muros. Muita gente junta, meios de comunicação ativos, mercados com sede de lucros, famílias lutando para firmar valores esfarrapados. O quadro não é animador. As diferenças são grandes, estimulam dissidências. Há pontos de desagregação que ameaçam a socialização dos benefícios, desmanchando tradições, colocando em dúvida futuros, usando vestimentas niilistas. A complexidade do social dá velocidade ao cotidiano. Exige fôlego. Nem sempre escapamos das frustrações, nem compreendemos as razões de paradoxos e desconcertos. Não há como deixar de refletir, colar o cacos que sobram.

Vivemos na famosa sociedade do espetáculo. Se há perdas, crises religiosas, interesses econômicos flutuantes e vorazes, há também encantamentos, espelhos, conquistas, seduções. O capitalismo não se acanha. Gosta de ampliar seus projetos e atacar em várias frentes. O mercado não é, apenas, composto de objetos frios. A sociedade do espetáculo atrai e compõe emoções. Substitui os mitos de outrora, cria figuras transcendentais e delírios inexplicáveis pelo discurso da objetividade. Movem-se milhões de pessoas entusiasmadas com artistas, políticos, esportistas, com suportes de uma estrutura renovada. A grana fertiliza as manipulações do sucesso e garante a globalização dos gostos. O mundo fica pequeno.

As multidões alimentam o ir e vir de negócios fantásticos. Chico Buarque percorre várias capitais do Brasil com seu show, Paul continua retomando a memória dos Beatles, os times de futebol se lançam em disputas que provocam violências. Como imaginar a sociedade contemporânea sem esses deslocamentos, com a ajuda das transformações tecnológicas e uma rede imensa de produtos para satisfazer a empolgação dos fãs? Os sentimentos inquietam, formam expectativas, decretam insônias, transferência de cidades, gastos inesperados, suspensão dos trabalhos. Borda-se o manto da ilusão, do divertimento, do passeio nas fantasias privadas. Um mundo de necessidades se concretiza e se espalha, sem maiores indagações.

Não é fundamental discutir a qualidade do espetáculo. Há ídolos para todas as ansiedades. O torcedor do Santos pode deslumbra-se com Neymar e desprezar as músicas de Caetano. Há manipulações, mas não se consolidam modelos permanentes. Uma competição esportiva traz belezas que, muitas vezes, um recital de grupo musical não oferece. As opiniões se misturam. Os admiradores desejam momentos de fuga, toques na sensibilidade, pausa para acreditar na criatividade e até mesmo na força de superar a incompletude humana. A narrativa da cultura não abandona o incomum, as travessuras de cada época. É preciso arrumar um significado para a vida, longe das dores de cabeça do dia-a-dia.

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2 Comments »

 
  • Arthur Barros disse:

    “É preciso arrumar um significado para a vida…”, realmente professor, com o capitalismo arraigado no nosso cotidiano temos uma grande aceleração no nosso tempo. Uma grande corrida se desenvolve nas nossas vidas com o objetivo de se alcançar o melhor ou se ter mais, com o objetivo de nos tornarmos bons consumidores.Isso faz com que as essências se percam e multiplique não só os problemas sociais mas principalmente os problemas individuais.
    Então é preciso se compreender como si próprio, criar seu próprio “eu”, descobrir suas próprias paixões e tentar se diferenciar das pessoas que ultimamente se mostram tão iguais.

  • Arthur

    A sociedade está num caminho que pode destruir sociabilidades e trazer impasses sérios. Está difícil. Você fez uma boa análise da situação.
    abs
    antonio

 

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